em Porto Covo,
ao cair da madrugada.
Cheguei reenviado pelo desprezo
do nada.
E resumo em ti o canto,
na dor recuperada de ter sabido
o fim.
Não te esqueci o rio,
esse fogo inacabado
e dentro ainda do meu peito
agora abreviado
nesta eternidade da vida de ti
e de mim.
Tudo aumenta a nitidez do olhar
e vejo-te.
É outro mundo que está a chegar
e dentro dele o primeiro silêncio
que jamais unirá o meu
ao teu olhar.
Quando tudo se fizer nada,
se quebrarem os raios de qualquer luz
e se chegarem perto todas as trevas,
mesmo por cima destas águas,
nesse instante,
pode acontecer a vida inteira.
Afastaste-me devagar.
Por um pequeno instante
de estranheza da lua,
que chega também, do lado onde o silêncio é maior.
Me digas toda a morte possível
com seus sinais interiores.
Eu dar-te-ei a minha mão
como se te desse o dia.
Todo esse ressentimento se entranhará de forma humana,
no soluço.
E uma neblina,
em jeito de cortina,
tocará o teu rosto delicado e branco
desta agonia.
Uma sombra desfaz-se no meu olhar.
É a desordem a nascer, neste lugar
que se enche do contrário de todas as coisas.
Quem te contempla assim,
que pode ver?
Não sabes o meu caminho.
Imagina esta minha quietude descendo agora a rua
na direcção do precipício.
Não tremas se me leres nesta tua partida
desejada em ti.
É mais o meu desejo que se move
no seu próprio desejo.
No seu início.
Esta metáfora, inquieta e lúcida,
reside ainda naquela angústia que Deus colocou,
in illo tempore,
numa carta incerta, ida de não sei onde
e escrita de frio e mão
para o frio de um interior.
Perto das águas, e com um pouco de imaginação,
vou colorir-te em doçura.
Podíamos até dançar no vento,
chegar-lhe os dedos juntos
à sua boca de beijos
e ternura.
Ou dormir junto à natureza das águas.
Este pequeno vento,
acenderá uma fogueira de trigo sobre o mar.
Molhadas nas asas,
algumas aves sentirão o nosso tempo das filhas
e vão acordar.
Foste sempre a terra toda,
o húmido fogo apertando o meu corpo
e a música
dilacerando a respiração.
A minha boca de me dizer a alma evaporada
desde aquele Fevereiro,
logo ao romper do dia.
Agora já não posso reencontrar-te no ar de Porto Covo
e toda a palidez do amor arde
rodeada de sal.
Devo fechar os olhos,
apagar toda a claridade e invocar os meses
onde se escreveu esta continuada
melancolia.
Os olhos e o coração viajaram muito
e leram todos os livros em conjunto.
São agora mais próximos um do outro
e quando pensam o novo mundo que anseio
o lenho do corpo estala no chão
desterrado
da minha cabeça.
Talvez tu penses
que cumpro apenas um modo de ver.
Deves perguntá-lo às minhas mãos,
ouvires melhor o silêncio e sorrires
devagar,
em letras ocultas que os olhos
já não podem
ler.
Deves ouvir a língua que trago dentro do peito
e este recado imprevisto do amor
desenhado em arestas de cansaço
com que te chamo.
Esta barca tremendo, tremendo
sobre as águas.
A alma que segue no canto das aves
cheia e vagabunda
de ternura
desde o início do tempo e da memória
que me dói.
Da memória
que ainda dura.
0 comentários:
Enviar um comentário