14 Agosto 2008

Da amizade ao desprezo

Levanta-se uma humidade fina,
em Porto Covo,

ao cair da madrugada.

Cheguei reenviado pelo desprezo
do nada.

E resumo em ti o canto,
na dor recuperada de ter sabido

o fim.

Não te esqueci o rio,

esse fogo inacabado
e dentro ainda do meu peito
agora abreviado
nesta eternidade da vida de ti

e de mim.

Tudo aumenta a nitidez do olhar
e vejo-te.

É outro mundo que está a chegar
e dentro dele o primeiro silêncio

que jamais unirá o meu

ao teu olhar.

Quando tudo se fizer nada,
se quebrarem os raios de qualquer luz
e se chegarem perto todas as trevas,

mesmo por cima destas águas,

nesse instante,

pode acontecer a vida inteira.

Afastaste-me devagar.

Por um pequeno instante
de estranheza da lua,

que chega também, do lado onde o silêncio é maior.

Me digas toda a morte possível
com seus sinais interiores.

Eu dar-te-ei a minha mão

como se te desse o dia.

Todo esse ressentimento se entranhará de forma humana,
no soluço.

E uma neblina,
em jeito de cortina,

tocará o teu rosto delicado e branco

desta agonia.

Uma sombra desfaz-se no meu olhar.

É a desordem a nascer, neste lugar
que se enche do contrário de todas as coisas.

Quem te contempla assim,

que pode ver?

Não sabes o meu caminho.

Imagina esta minha quietude descendo agora a rua
na direcção do precipício.

Não tremas se me leres nesta tua partida
desejada em ti.

É mais o meu desejo que se move
no seu próprio desejo.

No seu início.

Esta metáfora, inquieta e lúcida,
reside ainda naquela angústia que Deus colocou,

in illo tempore,

numa carta incerta, ida de não sei onde
e escrita de frio e mão

para o frio de um interior.

Perto das águas, e com um pouco de imaginação,
vou colorir-te em doçura.

Podíamos até dançar no vento,
chegar-lhe os dedos juntos

à sua boca de beijos

e ternura.

Ou dormir junto à natureza das águas.

Este pequeno vento,
acenderá uma fogueira de trigo sobre o mar.

Molhadas nas asas,
algumas aves sentirão o nosso tempo das filhas
e vão acordar.

Foste sempre a terra toda,
o húmido fogo apertando o meu corpo
e a música
dilacerando a respiração.

A minha boca de me dizer a alma evaporada
desde aquele Fevereiro,

logo ao romper do dia.

Agora já não posso reencontrar-te no ar de Porto Covo
e toda a palidez do amor arde
rodeada de sal.

Devo fechar os olhos,
apagar toda a claridade e invocar os meses
onde se escreveu esta continuada

melancolia.

Os olhos e o coração viajaram muito
e leram todos os livros em conjunto.

São agora mais próximos um do outro
e quando pensam o novo mundo que anseio
o lenho do corpo estala no chão
desterrado

da minha cabeça.

Talvez tu penses
que cumpro apenas um modo de ver.

Deves perguntá-lo às minhas mãos,
ouvires melhor o silêncio e sorrires
devagar,

em letras ocultas que os olhos

já não podem

ler.

Deves ouvir a língua que trago dentro do peito
e este recado imprevisto do amor
desenhado em arestas de cansaço

com que te chamo.

Esta barca tremendo, tremendo
sobre as águas.

A alma que segue no canto das aves
cheia e vagabunda
de ternura

desde o início do tempo e da memória
que me dói.

Da memória

que ainda dura.

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