15 Agosto 2008

Noite de ondas curtas




Flor de sangue,

esta noite perdeu-se por cima da poeira de Tipasa,
de onde se avista todo o pó da terra
e a ferrugem do mundo.

Ou talvez tudo se confunda com as algas,
com as mulheres, com a miséria.

Com uma certa fidelidade a alguns princípios
que são de ordem natural e simples,
não morais.

Falo do barco que sai de Almeria
para Orão.

A noite é plena e plana
com alguns sobressaltos.

Mas trata-se apenas de símbolos
que a verdade é a daquela mulher
que me pousou na cabeça
e me disse se a morte é a única solução,

não estamos no bom caminho
já que o bom caminho
é o que conduz à vida e ao sol.

Como naquele texto em que o caminho,
existindo,

já sabia de cor os passos
e os textos de amor tão recitados
em nome da felicidade
que se traduziam em cima da pedra doce

que era a memória.

É preciso destruir tudo,
ainda mais do que aquilo que já foi destruído.

Por isso imagino que viajando de avião até Tipasa
e não de barco,
se veria a ferrugem e o pó do sal
não da cidade mas das mentiras
de todo o mundo

onde a paz fracassa.

Sigo de barco,
numa noite de Verão que se bebe,
talvez por haver um cheiro estranho
que não pertence à Europa,

mas a África.

E há uma solidão muito grande
que a mulher entranhada na minha cabeça
aumenta ainda mais.

Olho para fora e não se vê nada.

Nada.

Só a noite ou mesmo para além dela,

que é ainda mais noite.

Image Hosting by Picoodle.com

0 comentários: