13 Agosto 2008

Só morre o que morre connosco

Fogo alucinante, este do sonho que caminha na noite
em devaneio.

Expandindo-se em estrela e tornando,
como se fosse em uso primordial,

aquilo que existe de humano no fogo.

Soube esta noite que o fogo,
num prazer de luxo intenso,

prova que a sua humanidade conquistou no homem
este espírito de ele ser uma criação do desejo
e não uma criação da necessidade.

Como se tudo o que arde
aumentasse a dimensão humana no seu destino.

A lareira arde no vulcão do teu corpo
a vida de um só teu cabelo na vida
de um mundo inteiro.

O sonho consegue ser mais forte que a experiência.

E o amor contém o fogo do sonho
não o da experiência.

Prometeu é um amante possante
mais do que esse filósofo inteligente e a vingança
dos deuses contra ele é um ciúme.

Ma esta noite aconteceu que te roubei
sem dares conta, às carícias mais íntimas
que a causa humana tem.

Portadora de ti em explosão constante
debaixo da terra
e em mistério permanente

qual Etna prestes a rebentar,

o fogo acabou brilhando no paraíso

e ardendo no mar.

Essa ressonância da noite, em fricção,
disse-me que existes e que o homem é
o que sempre foi.

Uma mão e uma linguagem.

Mão para a ternura e afago,
voz para o canto.

Como o das sereias atractivas
que conseguiram esta noite

curar o segredo
de todo o seu encanto.

Este calor molhado em fogo foi uma explosão.

Como se o químico ardendo no seu amor
tivesse falhado

objectivamente, a sua reacção.

O fogo é a natureza que não pode errar
e sem o qual nada se faz.

Nada se faz em vão.

Com ele, nada no Cosmos se protela ou se adia.

Pela intensidade de fogo
desta noite

mal em mim haverá

dia.


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