15 Janeiro 2009

O sofrimento por ti




Desço por mim esse caminho das labaredas
que transborda à minha frente todas as canções que venero.

Não sei se te durmo, se me dormes.

Sei,
por um outro vendaval,
que sou eu e não o deus quem estremece.

No meu lar de mim há lírios amarelos que esmorecem.

Como a palidez desfocada de ser sempre tarde demais,
de ser sempre, sempre, tarde demais.

Existe ainda uma amenidade que transforma o tumulto
no grande silêncio musical que vai
dos teus olhos
ao peito que guarda as convulsões.

Existe o emudecimento da fuga, da água,
de todos os limites
que vivem nos meus tremores de ti quando me distancias
no espaço
e todo o Universo
se reduz
à tua voz longe.

Estou nos teus olhos e conduzo-os a ti
por este caminho branco,
de abandono.

Nem te removas mais, que já nada
podes fazer para te voltar
a amar.

Abre-se a manhã e a cidade baqueia
num estrondo de automóveis.

Só ali, numa linha de olhar,
que se despede
junto à vinha
se alteia,
através de um caminho estreito,
uma forma de elevação do erótico.

Uma transcendência da tristeza.

E regressam, esses olhos, para interiores
de caminhos feitos.

Entro, morosamente,
com os olhos na língua,
na espessura branda dos seus lábios.

Como quem diz,
com esta palavra te sufoco a alma
que de ti já se transformou
nos dedos inteiros
da minha mão.

Aproximo toda a distância dos meus olhos
ao teu vagaroso olhar.

Mas eu explico através da sensação
não exacta, porque meia, de uns olhos a meio
também.

O amor não é senão a questão da ponte
que toca esta
e aquela margem,
além.

Vem de lá,
desse mar que toca o infinito e entra para saberes
todas as cores por dentro dos meus olhos.

Que chegaria ainda com a espera
da manhã, depois de todas as lágrimas
terem descido a sua lentidão até ao grande mar
e os meus olhos já não mostrassem os traços
do estremecimento das suas vagas.

Sem o abandono dos olhos nas horas.

Sem o início da luz branca, quando desce,

nenhum mal pode querer
que não tenha esta forma de
querer-te bem.

O mar, na proximidade dos teus olhos,
engrandece o outro lado de ti
e, quando o meu pensamento volta desse momento,
reza-me
que jamais poderá dar aos meus olhos,
em qualquer universo,
tanto sentimento
de beleza.

Que tanto sofro por ti.

E que ternura é morrer em ti.

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14 Janeiro 2009

O respeito e a amizade sinceras, no afecto





Sabia
que atravessaria o fogo, que teria que o reduzir
a uma estátua de gelo ao pé da porta,
e gritar ao vento.

Sabia mais.

Que se acabara, felizmente, a além-mundo.

Que se acabara o simples o incumbido.

E não existe amor porque, sem perguntas,
ele é o absoluto da flutuação
da sua palavra,
afecto.

A mesa do café, que já não é Montalto,
subiu de repente à beira de um cálice de Porto
e sorveu alguma paz,
para instalar outra.

Arderão as cinzas, quase extintas.

Com reminiscência, ainda.

Com afecto perpétuo.

Com ternura imortalizada.

Só o sensível mais elevado pode contemplar
esse mítico dilúvio
de onde apenas quem é divino escapa
tendo na barca construída tomado
a sua prevenção.

E só quem ergueu os olhos,
a cabeça e o pensamento,
a ternura e o afecto,
o afável e a meiguice,

o saber,
pode sentir e prezar.

A paz, a alegria, a quietação, o alegórico, o pânico, o ardor,
o anseio, o afecto, o abismo, a fragilidade, o sofrimento, o voo.

As tuas mãos, imaginadas,
dilataram toda a distância
sem voz nem proximidade e a tua boca
permaneceu fechada ao meu peito,
à elevação que fiz do bem e do afecto.

Como se o coração, em deleite, silenciasse a voz do caos
e transformasse o abatimento em afecto.

Trago apenas uma vivência a mais,
de ternura e afecto.

Que os lírios se queimaram na fausta
luz branca de ti
como se domingo fossem todos os
dias.

Esses, nossos, que de tão longe agora,
aprendo a soletrar.

E que seremos sempre este afecto,
sejam quais forem
as geografias.

O meu coração baterá no esqueleto e o teu,
não sei,
porque será sempre um segredo.

Lê-me nesta pedra onde tocam os meus ossos
e recupera os meus dedos das cinzas
e o afecto todo unido, desesperadamente,
por dentro,
em grãozinhos de romã.
e, finalmente, diz-me,
até amanhã.

Eu pensarei como foi e é possível, tanto afecto
e ternura desmedidos.

Tão desmedido afecto.

Se os teus olhos puderem ver e ouvir,
que toque morno pode unir em ti o afecto a essa linha infinita
do horizonte que eu vivi por ti tão junto à morte
e durante quase toda a duração do mar?

E, ao longe, tocava um sino.

Nunca acabarei o desejo, nem o afecto,
nem o amor, nem o bem que te quero,
que não é humano segurar-lhes a sua eternidade.

Apenas o divino.


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13 Janeiro 2009

Boca alucinada pela cobiça das aves




Enchi o corpo de tanta suavidade
como se a meiguice total dos deuses
pudesse suportar todos os hálitos quentes,
abrasadores,
na minha boca.

Não deixou, a madrugada, que o meu pensamento
pensasse.

Só a garganta, o peito, o coração,
se atreveram nesse espaço
do meditar.

As tuas mãos, imaginadas,
dilataram toda a distância
sem voz nem proximidade e a tua boca
permaneceu fechada ao meu peito,
à elevação que fiz do bem e do afecto.

Como vou aprender essa sílaba
única do sol que me ensinaste?

E a boca?

Porque me perguntas, tu também,
que forma é essa de querer bem?

Por sentimento?

Maior que tu, ó Mar, é o abandono.

Só que foi e voltou.

E diz-me os domingos dos domingos,
essa alegria da tua boca com olhar de silêncio
quando algum vento, nos teus cabelos,
abria de novo a porta dos livros
ao seu interior de repulsa e feitiço.

Envia-me essa ternura de dizeres,
meu bem não digas tolices
esquecendo-te do vulgar português
que já não tens idade para isso.

Tinhas uns olhos de voar por dentro
toda a noite,
uns olhos de céu na boca,
misteriosos,
de descontinuar a noite e torná-la mais noite
numa claridade de deusa suspensa em contemplação.

Cresce-me um espanto no interior da boca
e do peito.

Porque me falas tão bem
que parece que ainda somos
nós?

Eu observo o vento secando a tua boca.

Como se tudo
estivesse perdido.

Os meus olhos florescem nesta manhã,
de velas distantes no alto mar
como se a lentidão da areia, fina e branca,
nunca mais os fizesse chegar.

E, da boca,

sinto o sangue
a desamparar.

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12 Janeiro 2009

Há palavras que me beijam, como se tivessem boca




Que outra noite descobrirá, em fogo,
a tua boca de vento?

Meu gesto atractivo, dedos, ventre,
minha voz sufocante, sufocante
de enredos.

Que sentimento te ouvirá, te ouvirá
este tempo infeliz dos medos?

Meu sentido de vida, minha incerteza,
olhos profundos no negro, boca de comer
a desventura.

Vivo-a na boca dos meses que arrastaram,
pelas manhãs de mim, a maresia dos seus olhos.

Meses que arrastaram o retorno do tempo
da romã.

Tu, que nomeei, num tempo já vagaroso.

Depois, sem chão, nem vento, nem chuva,
mergulharemos os olhos, a boca, o corpo.

Num só corpo.

Um dia rasguei o musgo com uma pedra
na tentativa de encontrar um nome.

O golpe,
que fixou na pedra este sulco
foi tal,
que magoou o frio
no rosto de uma alentejana seca,
apodrecida no temporal.

Esta luminosidade, quase transparente e fria
enche a boca dessa antiga
contemplação solar.

Fica tudo tão quieto na boca, no pensamento,
no peito, quando estás aqui
que
até contamino o saber e todas as palavras
da minha ignorância
transbordam para ti.

Eu soube,
pelo longe e pela tristeza, desse desejo
não descoberto apenas em Agosto,
à beira mar,
da mesma forma como a minha boca,
seca de desejo.

Senhora do céu da minha boca,
cumpro a noite do dia de mim
como se estivesse ainda
no sol do meio-dia, junto às telhas
do telhado.

E o passeio de meiguice dorida perdeu-se
numa ampola de vento
dentro da boca.

Todo o interior feliz,
esse desejo de ser pela dupla humidade das bocas.

Eu sigo com o vento, como se fosse
a caminho da eternidade.

À velocidade enorme da luz,
que é ainda
devagar.

A minha boca fechou para sempre a agonia
como se os lírios da lua,
num repente tardio,
voltassem de noite e de novo,
a chegada, o universo, a água, o sol,
a boca, o delírio, a calma, o sonho,
a chuva, o oculto, o deleite, a cidade, a confidência,
o agreste, a denúncia, o devaneio, o regresso,
a lua, o prazer, a memória, o insuportável, a oração,
o dia, a partida, o rosto, a revelação,
o olhar, a sensualidade, o mar, a saudade,
a tragédia, o inexplicável, a vigília, a intensidade,
o céu,

o meu coração,
e a poesia.

Nua.

Que raio de paciência é essa que ultrapassa
toda a ciência?

Todo o bem e todo o
mal?

O deutério está na água e no ar
como eu estou na boca e na humidade tua.

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11 Janeiro 2009

O meu bem-querer





Como podias tu sabê-lo?

Que ceguei a alma no fundo de ti,
no fundo de ti,
no fundo dos teus olhos, precipício dos meus,
no fundo de mim,
na cessação vagarosa de mim.

Desalojavas, simplesmente, a paz.

Tu não sabias.

Só eu podia alucinar
o corpo.

Meu regaço, teu, meu interior,
meu peito de palavras tuas, minhas, soltas
ao relento.

Que outra noite descobrirá, em fogo,
a tua boca de vento?

Meu sentido de vida, minha incerteza,
olhos profundos no negro, boca de comer
a desventura.

Que emoção da tua carne, da minha,
te agitará a amargura?

Desfrui este vagar impossível
com que não queremos chegar
a lado nenhum.

Nem eu, nem tu.

Foi nele que ficou,
sublime, intensa e fechada,
para sempre,
a tua alma.

Existe o emudecimento da fuga, da água,
de todos os limites
que vivem nos meus tremores de ti quando me distancias
no espaço
e todo o Universo
se reduz
à tua voz longe.

Existe essa palavra,
que pode findar todas as palavras, cujo caminho
é a verdade.

Nenhuma pode exceder-se de êxtase,
quando a tua paz arrebata a rouquidão
do Mundo
e só o teu respirar persiste.

Existe essa palavra,
que pode findar todas as palavras, cujo caminho
é a verdade.

Nenhuma pode exceder-se de êxtase,
quando a tua paz arrebata a rouquidão
do Mundo
e só o teu respirar persiste.

O pequeno cansaço dos teus olhos segreda-me
que durma debaixo da tua ternura
e repetes as letrinhas inventadas.

Eu levanto todos os céus caídos,
sobressalto essa voz,
no teu peito,
no teu coração inquieto,
na tua beleza de lua.

E a tua sede é de água, ou de mar, ou de
mudança.

De mudança, simplesmente.

Mudança de um lado, para o outro,
da esquina.

Eu percorro
o vento, que não existe na sala.

E vejo, na perfeição e de repente, a tua alma
acesa.

As tuas perguntas nunca terão resposta segura.

Nunca serão estes pedaços de sol escondido
onde me agarro.

São tão brancas e tristes, tão tristes e brancas,
como esta cidade.

É que o longe não só está no teu olhar.

O longe é o próprio olhar.

E a tristeza a voz sem letras,
para além da transparência.

Por isso se abate o teu rosto de céu em mim
e a tua espera interminável
ondula no silêncio do trigo
como esse rio que te eu disse,
veloz,
que não se apanha.

E era fácil ver mas não ouvir
as tuas mãos no peito,
os teus olhos descerem aos lábios
com todas as palavras do abismo,
com todas as palavras da água,
que só me traziam silêncio
e a intraduzível mensagem da cor profunda
do mar.

Desse mar que eu enchi
do teu olhar.

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10 Janeiro 2009

Meu bem, bem meu de sempre




Visita-me a ausência,
o lugar que te deixei,
vazio, trémulo, o coração a bater,
a bater,
a carne molhada por dentro,
o estrondo do peito ostentando
este fogo.

Soprei para suspender o coração,
e pedi à alma
para ser imoral e explodir.

À boca para trincar a laranja
inteira,
absolutamente inteira,
da boca.

Entre nós não existe cortina
a não ser aquela das palavras escondidas, a seguir
aos três pontinhos.

Às vezes, a um coração.

Talvez num outro momento,
quando a leveza de uma manhã chegar,
quando o silêncio tornar a quietude
pesada
e esta abrir a memória
para o coração passar.

Esconde-se, por umas horas,
o coração.

Eu levanto todos os céus caídos,
sobressalto essa voz,
no teu peito,
no teu coração inquieto,
na tua beleza de lua.

Apago as estrelas do céu.

Seguro o teu olhar.

O teu olhar que as quatro letrinhas
agora, e sabiamente,
declinou.

Eu soube.

Que eu senti, desde o primeiro olhar
ao coração quente de toda a ternura da alma.

Disse-te que chegaria ainda depois, muito depois
desse fim que não sei onde está porque,
repeti, o meu coração arde,
o meu coração arde.

Trago-te um pouco
desse mal que vem por bem
e não é chuva porque me converte
a metade do coração
num coração inteiro.

Que farás pensar o coração na sua confeição
do movimento dos astros,
esse bálsamo dos domingos que foram
meu e teu achamento?

Não quer convertê-las em gente.

Nem em água ou vinho, para beber.

É um pedaço de pau,
com coração de pinho.

Nessa manhã, os ossos estalaram-me
este coração numa humanidade.

O céu,
o coração,
a poesia,
a serenidade.

O eterno.
Não deixou, a madrugada, que o meu pensamento
pensasse.

Só a garganta, o peito, o coração,
se atreveram nesse espaço
do meditar.

Perdi todas as memórias
mesmo as do coração.

Como aprenderei a ler? A escrever?

Como aprenderei a alma que foi?

Como moldarei de novo a criação do Mundo?

Como saberei ver?

Como se o ardor, deslizado do elevado azul
transformasse a fragilidade minha e depois tua.

Como se o coração, em deleite, silenciasse a voz do caos
e transformasse o abatimento em afecto.

Como se estivesses aqui. Tu.

Toda hoje,
no meu gelado coração.

Tinhas uns olhos de enrugar o vento,
de intimidar a águia,
de suspender a luz,
de ler todo o silêncio, de despir o corpo
e ficar apenas o coração
a tremer,
ele também oscilando às portas
do morrer.

Que águas baixas, translúcidas,
fizeram da tua vida
apenas essa equação?

Sabes o que eu amo em ti?
o gélido frio quente
do teu coração.

Não haverá afecto, bem e medo.

O meu coração baterá no esqueleto e o teu,
não sei,
porque será sempre um segredo.

As lágrimas só provocadas pelo correr das árvores,
das casas baixas,
da canção de Lara, na neve,
quente, em pleno coração.

Escuta-a.

Como se o meu pensamento
só fosse, e eternamente,
coração.

Sei dela a convulsão da paz,

Vem e traz-me, para o meu jardim,
as águas do futuro, esvaziadas da sua transpiração,
que eu oferecer-te-ei o melhor pano, vindo da Frígia,
e o licor da suavidade tua que transbordará o teu coração.

Regressa, nessa loucura bipartida
entre dois países diferentes de atracção.

Regressa, meio dividida, idêntica às duas partes
do coração.

E a tua luz, a luz do teu olhar,
pintou de azul celeste, turquesa, diria eu,
a força descomunal do meu coração
em ti.

Os meus olhos dirão mais, que aprenderam da alma
a paixão dela mesma e do coração senão o bem que te quero,
sem ser estranho na transparência do vidro
que é todo o meu corpo.

Algum coração ainda pode tragá-lo, a meio caminho
da morte.

E os teus olhos, que os escondes de mim,
no sentido de outros,
como se o teu coração, voando nas ondas por baixo do céu me dissesse,
só serei de ti este encantamento da paisagem,
feita sempre viagem, viagem.

Observa, desta falésia, a cor ensanguentada do mar
o coração em pedacinhos
de mim,
a tua face alta descendo do céu.

Entro no fim dos teus olhos
enquanto fechas e abres a boca de espanto
e gemido.

E sinto, em baixo, o primeiro espasmo do teu íntimo
como se fosse, pujante, o teu coração.

Arrefeço e guardo, tão petrificado como o coração,
a angústia de poder voltar a vê-lo.

Não vá eu, feito montanha,
cair no chão.

Até mesmo o meu coração só contém
água de alma, mansa e sábia que só serviu para
me iluminar melhor o teu olhar de abandono,
a minha cabeça já destruída,
caída,
de tanto arrumar o espanto
e tudo é tão frágil que já não dói.

O coração cá fora, trocado pelos astros,
a voz molhada do olhar,
arrebatada,
arrebatada.

Porque a sensualidade é presença fixa
na minha solidão
e toda a vigília se queima dentro
do teu coração.

Palpita nela o Universo e são inúteis as palavras
que vão da cabeça ao coração
tão simples e comovente é a serenidade
fora da razão.

As tuas lágrimas,
comovem todas as guerras e o coração da terra
fica pesado no teu regaço,
descido agora, finalmente,
ao sentir fora das equações e da química
que reside no teu corpo ameno.

Não te digo
que tenho o coração partido.

Não te digo nada, nada.

E, descendo,
vou perdendo,
pedacinhos de coração.

Ó minha boca de dizer o firmamento claro,
tão azul como o destino
da terra vista do alto e longe da luz onde Deus mora,
mistura em mim
a ternura e inteligência na chuva com que este enlevo
em mim mora
e abre-me as portas do jardim onde florescem, em suas cores variadas
de vermelho,
as cerejas com seu pequeno coração a baterem.

Ó meu amor deitado na minha imaginação,
segura-me as palavras
que eu não sei se as deva esgotar, até não ser mais,
para dentro do teu coração
que eu desfaleço numa delas apenas,
a primeira desta Primavera em coloração,
a que veio do mar em metade de romã
e te serve de véu e túnica e dá nome de livro à donzela
que és
neste volume perpétuo da tua geração.

As mãos silenciam-se e, perto delas, tu vives,
em passos apenas,
das algas da minha boca estremecendo-me as horas
do coração.

Hoje que me vives em lágrimas
idênticas ao que em mim,

nunca pode ser esse não.

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09 Janeiro 2009

Porque te abraço e beijo com esta palavra, Amor




Algum tempo é montanha e a memória continua a doer.

Outro tempo é mar e não é dor.

É um falso tecto.

E não existe amor porque, sem perguntas,
ele é o absoluto da flutuação
da sua palavra,
afecto, tão desmedido.

E diz-se dos silêncios e dos lugares de uma ilha
os seus amores desfeitos.

Que posso fazer com as palavras?

Mordo-lhe as sílabas na face
como quem trinca, devagar,
um pedacinho de côdea de pão.

Entro, morosamente,
com os olhos na língua,
na espessura branda dos teus lábios.

Há, em metade da cidade,
metade de uma dúvida sobre o amor.

É a incerteza se se deve amar ante a margem de cá
ou depois, na margem
de lá,
do rio que divide a cidade.

O amor não é senão a questão da ponte
que toca esta
e aquela margem,
além.
e dor.

E é aí, descendo, que se ouve uma canção
tentando decifrar
o que é a metade
do amor.

Céu e mar esgotaram
todas as suas lágrimas
sobre mim.

E a minha alma, pousada acima do amor,
começou a tremer,
a tremer, a tremer.

Até esta metade
do fim.

Disse-te, como se escrevesse a última carta de amor
dos séculos antigos,
que eu saí do mundo e regresso.

Meu amor depois, minha face triste e branca de ausência.

Toda a forma do amor, deformado por si mesmo em constante origem.

Toda a humidade aconchegada sem calafrios que serve o amor, a paixão.

Toda a fabulosa sintaxe da suavidade
com que a meiguice enfurece o amor.

E no teu corpo inteiro da minha face.

Da minha fé, hoje reconstruída.

Da minha ternura e amor,
do outro lado da Lua,
ao meio da Noite.

Só o amor absoluto, de muita rústica beleza,
pôde assim construir-te e desfazer-te
em tantas partículas quanto aquelas
do meu sangue,
espalhado pelo chão no
sempre mesmo lugar
de uma qualquer cidade.

Não recolhas dela qualquer vestígio
que,
por encantamento ou contacto adverso,
de um amor desfechado numa fenícia,
de tempos idos, a rocha fendeu
e a água, em seu discordante
se transformou.

Dizem também, em Monchique,
que foi ali que nasceu uma água
que é mistura
de todo o amor e ódio.

Cada átomo desse manto declina agora da fonte
e não é água.

É tão quente a terra baixa onde a água escorre
que,
dizem também,
nesse interior de vozes escondidas,
que assassinada ali foi a mulher mais bela
que fora
mãe.

E por amor.

Tão devagar, que tremi.

Parei e chorei, como se o amor fosse vacuidade.
Ninguém é vácuo.

Nem o aroma anis.
Só o peso sem peso, com que me carrego.

Tu foste o país, a terra, o único paladar do amor.

Foste o exílio, o deserto, o único segredo da dor.

Virtude e erro apenas intuído
do que foi o amor.

Do que é, ainda hoje,
essa magia.

Como navegou ele para ali,
já desfeito,
junto à orla do mar?

Primeiro foram os gestos, os ossos, as rugas,
e ainda o amor.

Depois a ausência.

Ainda a ausência e, finalmente,
a ausência.

Foi o amor, sem as mãos das manhãs,
de ninguém
nessas paredes que sobraram do tempo,
moribundo.

Ausência branca, minha face triste, meu amor depois.
Onda de florescer o céu, amor mortífero, meu regaço.
Nem a voz, o espanto,
algum segredo de temor
azul.

Dessa imensidão escrita e guardada,
que é ainda o amor
reedificação do nada.

Que tão pouca e imoderada pode ser
esta remissão?

Só a moral do amor engrandecida o pode dizer,
na sua grandeza.

Que me entranha o amor, depois de o amor
ter ficado nos destroços,
hoje irreparáveis da casa.

Quando surgirá do céu essa luz brilhante,
sobre as casas e árvores do meu corpo,
feito apenas da palavra mais simples?

Sobre todo o sensível e maior que o amor?

Fora do tempo e fatal.

Abeira-te de mim em êxtase dessa canção de amor
que se tornou eterna
nesse dia quinze de Agosto,
desaparecida no seu acontecer.

Vem
que a minha ternura e amor são apenas humanos
e os deuses foram arredados na sombra das cinzas.

Viram os meus olhos, viram os meus olhos
e não suportaram o que viam de tremor.

Eu fiz de ti em mim a fenda que fere mais
que o amor ardendo
e todo o fogo dele me suspende ainda na mulher oculta
que és.

Porque lá do alto a ponta de uma estrela, adelgaçada em luz,
me segredou que um amor assim,
não podia morrer.

Não pode morrer.

Nunca acabarei o desejo, nem o afecto,
nem o amor, nem o bem que te quero,
que não é humano segurar-lhes a sua eternidade.

Se aceitares, eu vou traduzir-te a realidade.

Porque, não o sendo, eu vivo,
depois deste regresso,
na verdade.

E aceita apenas de mim o que ainda posso
do amor em ti preenchendo,
a Humanidade.

O que corre no meu sangue é metade dele.

A outra metade é só afecto e amor em sentimento eterno
pulsando ainda no desejo absurdo
de mais se eternizar.

Um vento fino e algumas sombras. A não lembrança.

A permanência do amor.

Encontrar-te.

Pensei então que melhor fora
terem feito o buraco não na cabeça mas no afecto,
no bem-querer, no amor ou, mesmo, no sentimento em geral.

Disso, sim, é que eu vou morrer.

Porque eu posso agora, por um intermédio meio,
dizer a palavra amor.

Já sem receio.

Regressa-me o teu olhar,
nem que seja apenas sobre as minhas mãos
e põe fim ao tormento
que eu respiro-te em amor
como a ave suspensa e segura, suspira
no vento.

Regressa-me o teu olhar,
nem que seja apenas sobre as minhas mãos
e põe fim ao tormento
que eu respiro-te e respeito-te em amor
como a ave suspensa e segura, suspira
no vento.

Que nada te direi,
nada, absolutamente nada,
do amor.

Dentro, mas dentro
do coração e desce aos dedos,
apenas às palavras que de nada servem
senão para configurarem o que podem de tanto amor.

Tanto,
tanto.

Um amor desmedido apaga-me da vida
e não sei se sou dois
ou apenas um em dois, perdido em labaredas
de ti.

E não acredito que te digo,
ou a Deus, porque te digo, meu Deus!

Como te amo, meu sabor.

Esta é apenas a metade da minha alma porque,
se fosse as duas metades, já teria morrido.

Morrido de amor.

Que me afectava o amor, deveria eu ter dito,
arrastando ligeiramente as mãos par o lugar devido.

Mas deixei escorregar a palavra, como se ela fosse,
aquela que menos pudesse magoar.

Senti, na memória, o mesmo sabor da respiração
e essa afeição também dita do mesmo sabor do Mundo.

Do mesmo bem-querer.

Tudo isso já não existe senão porque houve amor,
não total, mas amor.

Un ami c’est quelqu’un qui t’aime
mesmo se a morte, quase consentida,
chegada ao ventre e subindo,
muito devagar,
muito devagar, tão devagar,
não suportasse a amiga
dentro do amor.

E sabe que eu odeio a poesia,

a luz carregada de brisa,
os campos ondeando no trigo,
toda a música de estremecer o próprio espectáculo,
a subtileza com que o calor, devagar,
desnuda no alto os corpos das deusas,
prontas ao amor.

Porque o agreste virou a sua face ao beijo em seu ardor
e o bem reviveu em anseio,
em palavra de amor.

Porque o céu é verdadeiramente azul, verdadeiramente azul.

Tu foste o próprio Amor, todas as canções que eu amo,
que tu amas
e a Beleza, a terra sempre recomeçada e não traída,
o cheiro sem desespero de vida.

A mais antiga da líquida água, a da primeira nascente,
seio da mais alta harmonia e inteira de silêncio.

Também não sei porque gosto de lírios,
que os imagino aqui,
amargos e rutilantes,
fundindo-se à boémia do ar e à anarquia do verde.

São como lanças que trespassam, líquidas, o sangue.

São mais finos que o amor, mais leves que a lembrança
e espessos como quem se esquece.

E Paris que foste da minha ternura, repetida em na tua cidade,
noutra ternura
onde
me pranteava por não ter país
e da sua cor cinzenta
de chuva escura.

Paris dessa guerra, tão acesa nos dedos onde o amor
era fatal.

Em cada esquina
de segredos.

E porque é o céu azul? Dessa cor?

Porque eu te abraço e beijo apenas

com esta palavra.

Amor.

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08 Janeiro 2009

Palavras cheias de amor



Não sei já preencher as palavras
do seu conteúdo exacto, não sei ler,
perdi as folhas todas da vida
e quero a casa vazia.

Um dia que possas chegar
eu sairei voando e tu terás a casa vazia
como se não tivesse sido nada,
nada.

Os homens do lixo levaram tudo.

Diziam
que uma casa só, parecia uma cidade.

Que tempo, logo a seguir ao tempo!

Só passei a ter palavras, depois
de ti.

Eu disse-te, esta noite, por outras palavras,
que já não me sei exprimir e que uma pequena alegria
transborda para fora tudo o que nela é tristeza.

Eu alongo a fuga noutras palavras,
claras e brancas
e transpareço um pouquinho.

Meu regaço, teu, meu interior,
meu peito de palavras tuas, minhas, soltas
ao relento.

Existe essa palavra,
que pode findar todas as palavras, cujo caminho
é a verdade.

Só passei a ter palavras, depois
de ti.

Escondes, sem palavras, o antigo e próximo desejo.

Esse, que persiste, sem persistir, na tua memória quente.

E organizo as palavras da imaginação.

Meu sossego seguro pelas palavras de agitação, quase loucura,
todas as palavras ditas ficarão assombradas.

Todos os silêncios e olhares, tardiamente,
reviverão ocultos na memória apenas dos teus olhos.

O chão que já não piso pelas palavras
falsas.

Pelo irreparável de quem não amou
nem nunca sentiu o caminho
de tanto bem.

De tanto bem.

Não medites nas minhas palavras
sem ciência,
que nada valem.

Escuta a voz da água.

As palavras expiram, as letras ficam de partida
e parece até que morre ali toda a poesia, desnecessária.

E o das palavras vestidas de nada
mas que falam.

Como se elas guardassem, as palavras
no seu amanhã,
o teu rosto nos meus olhos.

Nomes desconexos em palavras longínquas.

Vocativos poéticos na solidão do tempo.

Pedras de musgo avelhentadas na memória.

Palavras em loucura de agitação, meu sossego seguro.

Abandonaste essas palavras de afecto
na descomedida beleza de ti e de alguma música que,
entretanto, vais gesticulando nos lábios.

Não se abeirarão de ti estas palavras nem esta
tardia imensidão do amor
mas porque não oferecê-las ao vento desta tarde
como se a criança, em seu brinquedo de papel,
construísse o seu desejo de arte?

Ou porque existem ainda outras palavras
escondidas?

Venha a minha amada e traga, para o meu jardim,
o apetite total.

Eu oferecer-lhe-ei, em talhadas de melão,
as palavras meigas misturadas nas mãos que colheram hortelã
e segurarei o seu caminhar como o pequeno pastor
segura o seu rebanho,
com desvelo e atenção.

Sei que estás sempre bem mesmo se
por dentro te agita alguma tristeza
de estares feliz.

Nos corredores da minha noite,
quase parecidos com os do templo, sei ,
no vazio de mim, do teu íntimo preenchido.

Mas não sei porque me desmeço em ti
nas palavras que me atraiçoam.

Algumas palavras foram comuns pela escrita de um mesmo,
não sei se em nós,
se só em mim.

Desmedido afecto, por exemplo.

Não vou pedir-te nada a não ser que me olhes nos olhos,
que perdi muitas palavras e a minha boca
não sabe dizê-las todas e, a algumas, apenas na sua superfície.

Tenho que regressar-me, que regressar-te e dizer-te
que te enganaste nas palavras e imaginação,
que te enganaste de tocha para arder, de frio para soprares,
de vazio para abandonares.

Mas, como se as palavras fossem inúteis,
vou repetindo as mesmas
sobre a imaginada pureza do teu olhar
cujo toque eu pressinto, quando conduzo desajeitadamente,
sobre a minha mão.

Somos uma impossibilidade anímica,
impossível de palavras ao futuro, que não existe
e seremos sempre passado, memória ou não é a mesma coisa
quando dizemos as mesmas palavras, que serão minhas,
não tuas ou tuas, não minhas,
ou de ninguém.

Guardei em mim aquela voz,
as palavras, o rosto e o olhar imaginados e enchi o pensamento.

Trabalhei a memória no sentido de ela se encher
apenas com aquilo que acabara de ouvir do outro lado.

Forcei a consciência a seleccionar apenas e só,
esta relação na minha mente.

Depois assustei-me, não estivesse eu a agravar a situação.

Coloquei algumas questões.

É tudo leve, quando se pensa, disse sorrindo.

Aí é que eu me enganava.

É tudo, ainda, muito pesado.

Mais pesado que o Mundo ou a falta dele.

Sem ti.

Eu continuarei a dizer-te tudo, sem palavras.

Sei do impossível
do teu rosto e, do teu corpo, algum nada.

Por isso, só o futuro,
tão oculto como tu, que eu o sei bem em todos os sinais,

saberá dizer
tanto amor que foi e viveu
constantemente no morrer.
Meus olhos trespassando o céu do meu peito
que indiferença te vive no coração inexistente
de sal e sangue desfeito?
Se é por eu estar aqui, em palavras concentrado,
deixa-me sair que não lavarei em água
mais lágrimas de sono acordado.
E, por mais palavras que disseres, todas elas serão inúteis
com tanto silêncio maior.

Gostava de te ver, é verdade, já tenho a cabeça destapada
e o pensamento ainda em ti.

E que melhor palavra te posso enviar
para que eu beije o teu rosto ao longe?

Amor.

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07 Janeiro 2009

Antes de me ausentar para Deus




Ausência branca, minha face triste,
meu amor depois.
Esquecimento derretido, horizonte da
minha vida longa.
Palavras em loucura de agitação,
meu sossego seguro.
Caminho do olhar arrebatado, erotismo,
da minha alma.
Onda de florescer o céu, amor mortífero,
meu regaço.
Ventre indefeso e seco, corpo da
minha húmida voz.
Garganta dos meus tremores, cabelos do
meu vento.
Minha navegação fechada, meus braços respirados da
minha língua.
Lágrimas sem origens, sem letras,
meu sabor de rosto em sal.
Paz acreditada pelo tempo todo,
minha oração dos mares.
Ninho de flor e pão, ave de entardecer o
meu poente.
Desassossego e tempestade não sabida na
minha eternidade.
Noite esquecida pela respiração,
meu lugar de emoção.
Todo feito de nada,
minha memória arrecadada.
Olhos inclinados na casa de ninguém,
meu abandono inquieto.
Intensidade perdida, hoje velada,
minha violência e ternura.
Fadiga decomposta pela febre,
meu abismo e desacordo.
Limite da palavra ausente,
minha mágoa de rosto aguado.
Universo sem lugar nem caminho,
meu embalo ardido.
Desapego em pó de colheitas feitas,
minha dádiva terminada.
Boca alucinada pela cobiça das aves,
meu Oceano exacto.
Terra quente de chegar ao rio,
minha barca luminosa.
Linho branco da minha pele,
meu prodígio de mãos.
Gritos de medo e trevas,
minha luz de sofrimento humano.
Lírio desfalecido na berma,
meu longe agarrado por convocação.
Beleza confiada ao fogo e à pedra respirada,
minha terra.
Nau onde os lábios se molham,
meu colo de queimar os dedos.
Musgo frio adormecendo o meu tormento,
minha exclamação.
Distância polar e fria,
meu gemido de ouvir por dentro.
Origem do nome, simples e sempre,
minha raiz abandonada.

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Toda a minha ternura personificada



Disse-te ontem, em viagem,
ainda não finalmente,
a revelação
absurda dos dedos, que subiram aos olhos
com a sua natural calma, assim,
de repente.
Tu foste,
nestes meses de inquietação,
o silêncio mais meigo que habitou a minha respiração
e que fez do meu acordar para trás,
a continuidade da minha vida.
Abandonaste essas palavras de afecto
na descomedida beleza de ti e de alguma música que,
entretanto, vais gesticulando nos lábios.
Como naquela verdade, única,
da diva.
Inocente ou não, a tua presença foi sempre o dia seguinte.
Aquele onde repetidamente
o caminho pacificava a morte
pensada.
Não te vás e guarda-me, como se não estivesses
sempre acautelada na nossa distância,
iludida de nada.
Vivi-te este tempo, mais alma que recato,
mais olhar que estreiteza.
Lá no fim, que o fim chegará,
eu lembrarei a paixão intensa, a sede da língua,
a explosão da vontade.
Tu não poderás nunca transpirar esse azul
duplicado.
Outra cor a tua, por dissimulação,
será.
Talvez perguntemos, um ao outro,
que foi que aconteceu?
Que foi que aconteceu?
E a resposta nunca existirá.
Nunca existirá.


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06 Janeiro 2009

Fragmentação desafogada



Uma mão cheia de partes do corpo sentido.
Proposições sem ordem gramatical.
Impressões projectadas, umas na mesa, outras no ar.
Histórias de vida cingidas pela fragilidade da ética.

Fracções de sínteses despaginadas.
Películas cortadas do Salvatore no Cinema Paraíso.
Lareiras não acabadas em Invernos frios.

Cinzas sopradas nos caminhos agrestes de vento.
Olhares fixos na subjectividade das mãos.

Silêncios devagar em gotas de água íntimas.
Areias em gotículas, como vírgulas de suor.
Bocas de sulcos de liberdades exiladas.
Madeiras apodrecidas de barcos já sem navegar.

Cheiros de astros sem geometria.
Brisas quentes e frias afastadas da terra.
Últimas chuvas calcinando o azul dos lírios.

Deusas de pólen dissipadas na noite desabrigada.
Flores silvestres manchadas de pó e poluição.

Abismos humanos ausentes da sensibilidade.
Nomes desconexos em palavras longínquas.
Vocativos poéticos na solidão do tempo.
Pedras de musgo avelhentadas na memória.

Fogo marulhado nas nuvens da casa.
Atracções fulgentes em águas superiores.
Vapores de vinho aproximando os astros.

Curvas em inclinação perigosa de segredos.
Respirações lidas em noite de fresca hortelã.

Segredos das nascentes, intuições desejadas.
Oferendas subtis, ligeiras na sua humidade.
Luzes de despedida como se a humanidade imaginasse.
Orações de tremores abstractos na hora matinal.

Início e fim,
numa das mesas do Graal.

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Natureza morta ou eu morrendo




Bom dia. Estás bem?

Que significa o esgotamento do bem,
a morte afectiva
e tudo o que foi
desmedido?

Que o bem só vive na liberdade momentânea
e o afecto só guarda a sua humidade
no dia de ontem.

Não no de hoje.

Desces as mãos dos seios ao regaço
e eu observo o vento secando a tua boca.

Como se tudo
estivesse perdido.

Os meus olhos florescem nesta manhã,
de velas distantes no alto mar
como se a lentidão da areia, fina e branca,
nunca mais os fizesse chegar.

Na ponta dos nossos dedos, e a meio caminho da mão,
dois calafrios se instalam.

O do interior da música que fez tombar o maestro
sobre a mesa, onde almoçava o olhar,
olhando.

E o das palavras vestidas de nada
mas que falam.

Como se elas guardassem, as palavras
no seu amanhã,
o teu rosto nos meus olhos.

Navegando, navegando.

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03 Janeiro 2009

Os livros que detesto





Mas tu és um amante dos livros,
dizes-me e imagino a tua voz.

Cresce-me um espanto no interior da boca
e do peito.

Porque me falas tão bem
que parece que ainda somos
nós?

Mesmo se o bem é,
pela negativa,
aquela frase tua num dos livros de Filosofia,
que ficará agora na nova biblioteca,

“para que nos amemos sempre na sabedoria.”

Tão guardada a tua aparência
que mete
dor.

A sabedoria, existindo, não teve essa perícia
de te segurar no afecto.

Eu,
desisti dela e guardei, mesmo que não o sintas,
o amor.

Não pelo prazer de me fazer mal, como disseste,
em Lisboa,
naquele almoço passado.

Mas porque abriguei permanentemente
as tuas palavras
escritas.

Quer nos livros, quer na tua face
eterna,
ao meu lado.

E aqui, nesta cidade de nós,
é mais simples ler, sem ser nos livros,
essa frase calada,
do teu pensamento.

E dela, a tua presença constante.

Pensar,
nesta suavidade de olhar que te escuta,
esse mesmo amante
que fui e sou de ti.

Como naquela carta escrita, antiga,
num banco de jardim do Cais do Sodré,
para Castelo Branco.

Felizmente que temos esses dois Mundos,
que nos continuarão.

Obrigado

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Os teus olhos




Tinhas uns olhos negros de voar por dentro
toda a noite,
uns olhos de céu na boca,
misteriosos,
de descontinuar a noite e torná-la mais noite
numa claridade de deusa suspensa em contemplação.

Uns olhos de arruinar a paz em seu silêncio de sangue,
em seu sangue
de vulcão.

Uns olhos de descida aos abismos,
de voltar deles para morrer de seguida.

Uns olhos de olhar todos os possíveis calendários
e contar-lhes as horas em todas as latitudes
do acontecer.

Uns olhos de sol,
de luar,
de não se saber se estamos a chegar à vida
ou se partimos, já que nada mais há,
para ver.

Morri neles e ganhei toda a liberdade para não olhar.

E para olhar sem medo esse terror
que seria, olhar uns olhos acima.

Tinhas uns olhos de enrugar o vento,
de intimidar a águia,
de suspender a luz,
de ler todo o silêncio, de despir o corpo
e ficar apenas o coração
a tremer,
ele também oscilando às portas
do morrer.

Uns olhos quentes de Inverno como se neles coubessem
todas as memórias antropológicas do que é
a memória inútil da História.

Lembro-me deles e estoiro,
nessas romãs da neve última que ia das Penhas
à tua cidade.

O sol branco subindo o opaco das flores
e estas esmagadas de olhar,
na tarde fria de antecipado prodígio.

Desço o pensamento e a imaginação
em todos os olhos de Paris.

Das mulheres de Paris
que parece que voam,
numa ânsia apenas,
de não voar.

E os teus olhos?

Onde os encontrarei?

Mágoa minha aberta pela afeição,
onde encontrarei, depois da vida.

O teu olhar?

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Estou absolutamente só

Esta,
é a Rue de la Harpe,
reclusa pelo “Quando a Memória Dói.”
Nela te encontro, mulher já sem caminho
do meu caminho.
Do caminho último que foi,
sem viver.
Sinto que envelheceste de encanto
olhando, não sei se com um sorriso,
a minha cicatriz crescer.
Os barquinhos, pintados de várias cores,
lá permanecerão, no passeio matinal
do Porto de Sines,
sem roteiro.
Já não correm nas veias como antigamente.
Os teus caminhos foram muito poucos.
Os meus,
contam-se aos milhões,
pelo Mundo inteiro.
No pó da casa hoje, das águas idas, reside
o punhal antigo
que só agora serviu para ultrajar.
O punhal que nunca chegou a limar as margens
nem do Sena, nem do Zêzere.
Como navegou ele para ali,
já desfeito,
junto à orla do mar?
Primeiro foram os gestos, os ossos, as rugas,
e ainda o amor.
Depois a ausência.
Ainda a ausência e, finalmente,
a ausência.
Foi o amor, sem as mãos das manhãs,
de ninguém
nessas paredes que sobraram do tempo,
moribundo.
Como se um nevoeiro denso
envolvesse constantemente, dos meus olhos,
o Mundo.
Esta é a Rue de la Harpe, da Maspero.
Não descubro nela os vasos perfumados
nas janelas
e o tempo está de sol.
Desse sol que agora vive
no que já não sou.
Não o mesmo de Sines.
Apenas este.
Mantêm-se os fritos árabes
e o mesmo homem, de outra linguagem
mais brilhante.
Tu n’as pas une pièce?
une cigarette?
Oui.
Une cigarette, parce que tu vois?
j’ai recommencé.
Um beijo.
Frio e
distante.

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02 Janeiro 2009

Desgraça

Chovia e o mar escurecera, de repente,
lá na praia deserta do Monte Velho,
como se eu fora
culpado.

Escrevi-te uma palavra na duna carregada
ainda de Agosto, esse mês sem dicionário,
em letras menores, o nome,
simplificado.

E no texto, ele também oculto na cabeça,
já no caminho esquecido, no regresso,
a sofreguidão angustiante da
despedida.

Não me lembro de mais nada, ou lembro,
do sol, por uma fresta longínqua, aberta na mão
sangue?

Ou aquela lágrima dele,

acontecida?
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01 Janeiro 2009

Limitações do humano




Metáfora simples e frágil,

(tanto tempo depois
de toda a existência ter tido
essa pertinência sensível)

tu disseste o plural da limitação
no singular que ela foi apenas em ti.

Apenas em ti.

Eu abandonei o humano, se quis viver até hoje
nessa memória dorida,
aguada ainda nas últimas tangerinas de Dezembro
e fiz da exasperação a liberdade
do sofrimento.

Tu foste o país, a terra, o único paladar do amor.
Foste o exílio, o deserto, o único segredo da dor.

O humano não é aquilo que são as circunstâncias
mas o que está para além delas.

É esta eternidade de guardar a palavra de ontem
como se o trigo, molhado pela fina chuva,
fizesse dela o seu fermento.

Não há, portanto, limitações.
Só esta memória ainda do futuro.

E tu.

Virtude e erro apenas intuído
do que foi o amor.

Do que é, ainda hoje,
essa magia.

Do que é, ainda hoje, essa selvagem semente
da memória e do regresso.

Esse encanto movido que foi, não pelo comboio,
mas pela paixão.

Como se estivesses ainda naquela madrugada,
acesa no vento, com olhos de espera
por Espanha dentro.

Como se estivesses aqui. Tu.

Toda hoje,

no meu gelado coração.

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Geografias tão vazias




Envia-me então a seara da tua coragem,
mulher e mãe.

E diz-me os domingos dos domingos,
essa alegria da tua boca com olhar de silêncio
quando algum vento, nos teus cabelos,
abria de novo a porta dos livros
ao seu interior de repulsa e feitiço.

Envia-me essa ternura de dizeres,
meu bem não digas tolices
esquecendo-te do vulgar português
que já não tens idade para isso.

Diz-me as vulgaridades necessárias dessa cidade
escondida da Sé, por onde caminhas
os teus e meus passos divagados.

Respira-me de longe
esse interrogativo sentimento
nunca descoberto
nem sabido,
porque, da minha à tua distância,
só esse jardim irreal do tempo perdido
permanece agora com seus aromas
sagrados.

Envia-me apenas uma palavra,
nem que seja essa
decifrada em tristeza
ou esse instante fotográfico
da luz de domingo
que não cessa.

E diz-me devagar, muito devagar,
que está sol e gostarias de ir ver o mar.

Que os lírios se queimaram na fausta
luz branca de ti
como se domingo fossem todos os

dias.

Esses, nossos, que de tão longe agora,
aprendo a soletrar.

E que seremos sempre este afecto,
sejam quais forem

as geografias.

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La femme au lit



La femme au lit, pardon au loin, près de la mer.
La femme, mon corps, mon nom de lointain.
La femme qui m’a remplie de poésie, de distance amère.
La femme quittée, la femme sans raison sur la plage inodore.
La femme qui n’a plus vingt ans.
La femme surmontée par l’inconscience de ma colère.
La femme infidèle, toujours réelle, malgré la mémoire.
La femme triste en pantalons de couleur gris.
La femme partie au bout d’un livre que j’ai écrit.
La femme occulte par un fleuve de couleur noire.
La femme qui m’a endormi par la chaleur de l’été.
La femme morte dans toutes les rues de Paris.
La femme à l’école disant je ne veux plus de lui.
La femme perdue dans sa chambre à minuit.
La femme révoltée par rien, par l’ardeur.
La femme qui ne fait plus de mal, sauf à moi.
La femme fermée aux odeurs de certaines paroles.
La femme endormie sur le sable au mois d’août.
La femme que je n’ai pas cherchée partout.
La femme posée en silence dans son ventre vide.
La femme remplie de vie, par la femme.
La femme inconnue.
La femme, femme.

La femme à Paris.

Perdue, perdue.

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Bem-hajas então



Bem-hajas então pelo mal que não foi feito,
mas sinto.

Sinto-o pela troca das palavras erradas
porque fui eu,
eu sim,
quem manteve sempre o branco dessa realidade
que julgas estivesse escondida.

O branco fiel e justo a ti.

Sempre e,
sinto-o na altura do tempo, nesta chuva pequena
que cai, na silhueta da ave que, de repente,
sente que vai morrer e desce
ao silvado, para se esconder da vida.

Bem-hajas, se isto se pode dizer assim,
pela violência rápida e continuada por olhos
que não sabem contemplar a vida
no desumano sanguíneo
da carne e da alma.

Do corpo.

Mas nada foi verdade.
As palavras translúcidas
foram apenas palavras.

Diáfanas, de uma poética
que só o pensar realiza.

Deixa então que se espalhe para sempre
o sofrimento dessa rusticidade onde só a secura
e, desta vez, a verdadeira maldade
prova que em ti,
o bem,
reside em tudo o que está morto.

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